"Ampliação de Viracopos é um tiro no pé", diz urbanista
A geógrafa e urbanista Maria Adélia de Souza sustenta uma tese, no mínimo, controversa. Contrariando uma quase unanimidade entre governantes, empresários e população, ela disse em debate promovido pelo Instituto Jequitibá em parceria com a Associação Campineira de Imprensa realizado na Câmara Municipal na tarde de terça-feira (14/04), que a ampliação do Aeroporto Internacional de Viracopos, vai trazer muito mais prejuízos, que benefícios à cidade.
Segundo ela, o impacto ambiental será “de enorme gravidade”; vai atrair fluxo migratório intenso e, com ele, a concentração de mão de obra pouco qualificada. O resultado disso, adverte, será o empobrecimento da população e perda na qualidade de vida. “Ampliar Viracopos nos moldes que se deseja hoje será um tiro no pé”, decreta ela.
Graduada em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado e doutorado em Geografia pela Universidade de Paris, Maria Adelia diz que até hoje, passadas várias décadas da sua ampliação, as autoridades francesas ainda enfrentam processos judiciais por conta da ampliação do aeroporto Charles De Gaulle.
“Eu tenho um amigo que mora a 50km do aeroporto, mas na rota dos aviões, que ficou surdo. Ele processou o Estado, comprovou que a surdez é consequência do ruido provocado pelas aeronaves e, com certeza vai ganhar a causa. Mas de que vai adiantar? Ele está surdo”, disse.
Segundo a urbanista, o projeto de ampliação do aeroporto e a implantação do sistema intermodal com o Trem de Alta Velocidade (TAV) “não estão sendo tratados pelo governo com seriedade nem responsabilidade”. Segundo ela, “nem Campinas, nem o Brasil precisam disso”.Para Maria Adelia, há outras regiões do País que poderiam receber esses equipamentos que poderiam servir melhor a economia brasileira. “Mas tudo aquilo que acontece em centros mais populosos não são do interesse do País. São sempre a serviço de interesses externos”, diz.
Pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa do Brasil e presidente do Territorial - o Instituto de Pesquisa Informação e Planejamento, Maria Adélia diz que Campinas tem sofrido por fazer opção por este tipo de equipamento.
“Quando fez o entrocamento rodo-ferroviário; com o aeroporto, agora com o TAV. Isso não está a serviço de Campinas. Porque vai se fazer corredor de exportação? Para trazer toda a produção do agronegócio para uma região já concentrada. Não é ampliando Viracopos que vamos resolver o problema de escoamento da produção do Centro-Oeste, que é para isso que vai servir”, afirma.
Para a urbanista, o Governo Federal não faz uma discussão séria sobre uso do território. “Nós precisamos saber qual é o sentido para nós, aqui da região e para o País, da instalação, aqui, de um megaequipamento como esse”, questiona. “E não se discute por conta dos interesse políticos daqueles que decidem sobre Viracopos”, conclui.
A pesquisadora diz que a ampliação do aeroporto e a instalação do TAV “ vai agudizar o processo de empobrecimento da cidade, porque o discurso que se faz hoje sobre Viracopos deverá se transformar num chamariz para a migração.
Todo mundo vai querer vir pra cá e não vai ter o que fazer. Não vai ter moradia, vai acirrar os processos de ocupação. Agregado a isso, teremos todas as repercussões negativas no sistema de saúde pública, na acessibilidade, no trânsito, nas políticas de moradias”, alerta. “É um tiro no pé. A ampliação de Viracopos é um tiro no pé”, finalizou.
Ampliação
Um plano já aprovado pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), até 2014 a capacidade de Viracopos será triplicada com sua ampliação. Ela saltará dos atuais 3,5 milhões para 10 milhões de passageiros atendidos por ano. A expectativa é que, em 2030, o número bata em 60 milhões - fazendo de Viracopos o maior aeroporto da América Latina.
A primeira etapa do projeto inclui a construção de uma segunda pista, ampliação do pátio de aeronaves e do estacionamento de veículos, reforma do terminal de passageiros e aumento do número de balcões de check in. A reforma de Viracopos está estimada em 6,4 bilhões de reais.
Viracopos conta com um terminal de passageiros, 32 balcões de check in, quatro elevadores, praça de alimentação, 47 lojas, sete portões de embarque, quatro esteiras de bagagens, duas salas de embarque, duas salas de desembarque, três postos de alfândega, além de dois canais de inspeção internacionais e três domésticos.
A pista, de 3.240 metros de extensão, é adequada para receber qualquer tipo de aeronave. Ali, são feitos diariamente 171 pousos e decolagens.
Atualmente é o maior centro de cargas do Brasil. Passam por ali 141 cargueiros por semana.
Em volume de passageiros, é o aeroporto que mais cresce no país. Enquanto a média brasileira gira em torno de 10%, Viracopos apresentou, entre janeiro e setembro deste ano, um crescimento de 171% em relação aos 12 meses de 2008.
No final do mês passado a Infraero suspendeu o processo de licitação para a construção da segunda pista até a obtenção da licença ambiental que será expedida pela Cetesb. Toda essa nova estrutura irá impactar de maneira negativa a cidade, segundo Adélia, e Campinas não está preparada para essa ampliação.
“Campinas não precisa disso e nem o Brasil. Campinas sofreu quando fez a opção pelo entroncamento rotoferroviário, corredor metropolitano. Não é ampliando Viracopos que vamos resolver o escoamento da produção do centro-oeste brasileiro. É para isso que vai servir”, criticou.
Na opinião da especialista a cidade irá enfrentar o problema da imigração que irá se desdobrar em dezenas de outros. “Isso é um chamariz para a imigração, para o empobrecimento. Será uma ocupação desordenada que vai incidir no sistema de saúde, transporte, educação. É um tiro no pé”, concluiu a especialista.
Texto: Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Campinas
Fotos: A.C.Oliveira/CMC
