Especialista defende suspensão do projeto de construção de Belo Monte
O pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade Estadual de São Paulo (USP), Francisco Hernandez, defendeu nesta quinta-feira (17/06) em seminário na Câmara Municipal de Campinas, que o governo abandone o projeto de construção da usina hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu, no Pará.
Engenheiro
elétrico de formação, Hernandez participou do Fórum Ambiental
Regional promovido pela Câmara em parceria com a Organização Não
Governamental (ONG) Instituto Jequitibá e disse que a construção
da usina vai provocar danos sociais e ambientais gigantescos; vai
consumir enorme quantidade de dinheiro público e não conseguirá
produzir energia suficiente para atender às necessidades do País.
De
acordo com o pesquisador da USP, a usina de Belo Monte vai operar com
grande capacidade ociosa. “Estudos já mostraram que apenas 39% da
capacidade operativa da Belo Monte será acionada. A usina vai trazer
problemas sociais de grandes proporções para as populações
ribeirinhas e comunidades indígenas; vai provocar um volume de
escavação tremendo, que se igualará ao empreendido na construção
do Canal do Panamá, por exemplo. Além disso, vai demandar severo
investimento público, com dinheiro do BNDES e de Fundos de Pensões,
sob riscos enormes”, disse ele, que é considerado uma das
maiores autoridades brasileiras em energia.
Hernandez lembrou que nenhum estudo apresentado até hoje, conseguiu dimensionar com clareza os custos da obra. " No começo se falava de R$ 6 bilhões. Depois, subiu para R$ 9 bilhões e em seguida para R$ 16 bilhões. Agora já se fala em R$ 30 bilhões”, diz.
A Belo Monte foi projetada para ser a maior hidrelétrica inteiramente brasileira. A previsão é que seja a terceira do mundo, atrás apenas da chinesa “Três Gargantas” e a binacional “Itaipu”, construída em parceria do Brasil com o Paraguai.
A
intervenção no rio ocorrerá próxima à cidade de Altamira e,
segundo Hernandez, vai provocar uma situação inédita. “Ao mesmo
tempo em que vai alagar uma grande área, vai praticamente secar um trecho
de 120 km do rio – uma situação jamais vista em nenhum projeto de
construção de hidrelétricas no mundo”, afirmou.
A barragem sobre o Xingu será um paredão de 6km de extensão e 150 metros de altura. A água será represada antes da chamada “Volta Grande” - quando o leito do rio faz uma curva de aproximadamente 120 km. A água represada será desviada para um outro ponto do rio, de forma que a Volta Grande vai praticamente deixar de existir. Para o desvio, serão necessárias inúmeras obras complementares, como a construção de dois grande canais – um de 8km de extensão e outro de 12 km. Haverá ainda, a construção de 29 diques – muitos dos quais terão 2km de extensão, 60 metros de altura e 170 metros de largura, sobre rios menores, afluentes do Xingu.
Duas comunidades indígenas – Juruna e Arara – instaladas na Volta Grande, perderão o rio. Do outro lado, áreas anteriormente secas serão inundadas. Com essa intervenção, ele diz que a vazão do rio vai baixar em até cinco metros. “Em 60% do tempo, o nível da água será 3 metros menor”, afirma.
Francisco Hernandez aponta vários problemas do Relatório de Impacto Ambiental da obra. Diz que o número de pessoas atingidas será maior do que o identificado pelo estudo e a área a ser alagada é mais que o dobro do que foi descrito no relatório. Há expectativa de migração em massa para a região e, com ela, o aumento dos problemas de violência, desemprego, subemprego.
Segundo o engenheiro, outro aspecto negligenciado no estudo foi a emissão de gás de efeito estufa provocado pela decomposição de material orgânico que será gerado pela inundação da floresta. “O metano é 24 vezes mais nocivo que o CO2, por exemplo. E nisso, o estudo não toca”, diz.
Francisco
Hernandez critica a postura do governo e de setores da economia que
dizem que a construção da usina vai provocar um surto de
desenvolvimento para a região.
“Nada indica que isso vá ocorrer. Foi assim no ciclo da borracha e todo mundo sabe que aquilo se transformou num fracasso. O governo repetiu a história com a Transamazônica, nos anos 70. Agora querem vender a ideia de que Belo Monte é o progresso. Ninguém, em sã consciência deve acreditar que isso será possível”, afirmou. Segundo ele, nem mesmo os técnicos do Ibama garantem a sustentabilidade do projeto.
WASHINGTON NOVAES -
O Fórum prossegue nesta
sexta-feira com o jornalista, ambientalista e indigenista Washington
Novaes. A palestra acontece no período de 9h30 ao meio-dia no
Plenário da Câmara. A palestra é aberta ao pública. O acesso ao plenário poderá ser feito pela Av. Engenheiro Roberto Mange, 66, no bairro da Ponte Preta.
Texto: Tote Nunes - Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal.
Fotos: A.C. Oliveira/CMC
