Presidente da Setec depõe na Câmara e promete rigor na investigação
A presidente da Setec, Maria Tereza Dóro, disse nesta segunda-feira (21/03) em depoimento na Câmara Municipal de Campinas, que antes mesmo das denúncias feitas pela imprensa já havia instaurado processo de investigação a respeito de procedimentos adotados no serviço funerário da cidade. “Só não falei antes, porque não queria acusar alguém sem ter ao menos uma prova consistente”, afirmou ela.
De acordo com denúncias feitas pelo jornal Correio Popular, corpos que passaram pelo necrotério do Cemitério Nossa Senhora Conceição, nos Amarais, estavam sendo utilizados como objetos de estudo em cursos particulares de tanatopraxia, sem que os familiares fossem informados ou tivessem autorizado os procedimentos. No depoimento aos vereadores, ela disse ter ficado “enojada” ao verificar o funcionamento de determinados serviços da Setec, segundo ela, “um acinte à dignidade do ser humano, vivo ou morto”.
Tereza Dóro contou que assumiu o cargo em 10 de janeiro deste ano e pouco mais de um mês depois, no dia 15 de fevereiro, fez um questionamento por escrito aos funcionários da autarquia a respeito dos cursos e da forma como os corpos estavam sendo preparados para os funerais. Disse que foi levada a questionar o sistema depois que teve de pagar R$ 48 mil a médicos legistas, que pertenciam ao quadro de funcionários do governo do Estado e que, portanto, deveriam receber os salários do Estado.
No pedido de explicações quis saber se os cursos eram oferecidos em outros municípios; se havia convênio com instituições médicas para a realização das aulas, quanto se pagava aos professores, quanto se cobrava dos estudantes e as razões pelas quais a Setec se via obrigada a fornecer o material usado nas aulas, como tesouras, pinças, gazes e outros materiais. “Diante das respostas evasivas que recebi, no dia 23 de fevereiro resolvi instaurar uma sindicância interna. A primeira reportagem do jornal foi publicada no dia 3 de março”, disse.No curso, que tinham turmas de até 16 alunos - os estudantes aprendiam técnicas de higienização e conservação de cadáveres para serem velados ou transportados. A maior parte dos alunos é de funcionários de funerárias da região, que pagam R$ 1,9 mil de matrícula. Em um dia de aula, 15 corpos seriam manipulados. De acordo com a publicação, as famílias assinavam liberação sem saber que davam aval para a utilização dos corpos nesses cursos. Para atender à demanda dos cursos, a liberação dos corpos muitas vezes era retardada.
O procedimento chamado de tanatopraxia, segundo Tereza Dóro, é utilizado apenas em casos especiais - quando o sepultamento se dará alguns depois da morte, como no caso em que o corpo tem de ser transportado para outros estados ou para fora do país. A presidente afirmou que os cursos foram suspensos.
Tereza disse ter ficado chocada com a rotina trabalho no setor funerário. “Num dos primeiros dias de trabalho, vi um tanque cheio de um líquido avermelhado escuro. Perguntei do que se tratava e me disseram que era sangue e dejetos. Perguntei qual a destinação que se dava àquele material e me disseram que jogavam na rede de esgoto. Numa outra ocasião perguntei a respeito do corpo de um homem nu, descoberto, colocado em cima de uma mesa e fui informada que o corpo permaneceu ali de um dia para o outro. Na geladeira havia pilhas de corpos”, relatou ela.
A presidente da Setec prometeu divulgar a data precisa dos cursos e, assim, tentar identificar os corpos que podem ter sido manipulados. Mas fez uma ressalva. “É preciso lembrar que nem todos os corpos que apresentaram demora na liberação foram manipulados ou utilizados nos cursos.”, disse.
AMEAÇA – Tereza Dóro disse ter recebido ameaça. “Dias desses recebi um telefone e a pessoa me disse o seguinte: “Doutora Tereza, fique esperta. A senhora está brincando com fogo”. Mas eu não me intimido. Já vivi o bastante para ter feito as coisas que deveria fazer duas ou três vezes”, disse ela, dirigindo aos vereadores. “Vocês não ouviram falar que só peru morre de véspera? Pois é. Se for o meu dia, será. Se não for...”, acrescentou.
Tereza Dóro pediu a ajuda da Câmara. Vou precisar muito da ajuda dos senhores (vereadores) para que possamos, juntos, dar uma resposta satisfatória à população”, finalizou.
Texto e Foto: Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Campinas
