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Testemunhos de vítimas na Câmara marcam a divulgação do livro “Infância Roubada: crianças atingidas pela Ditadura no Brasil”

15/04/2015

Vítimas que eram crianças no período da ditadura contaram suas histórias na Câmara Municipal de Campinas na tarde desta terça-feira (14/04). O primeiro a falar foi Ernesto Nascimento. Banido do Brasil aos dois anos de idade, fichado como terrorista e procurado político, ele disse que é preciso fazer várias reparações históricas. “Éramos crianças, mas éramos perseguidos, torturados, separados dos nossos pais, levados para orfanatos e não há o que possa reparar isso. Mesmo após a anistia, vivíamos num ‘exílio branco’, até mesmo meu diploma de ensino superior só foi reconhecido em 2012”, lembrou, emocionado.

Toda essa história aconteceu porque o pai de Nascimento era integrante da VPR, a Vanguarda Popular Revolucionária, organização política de combate à ditadura, liderada pelo capitão Carlos Lamarca. Ernesto foi uma das quatro crianças trocadas com outros 40 presos políticos como resgate do sequestro do embaixador alemão, Ehrenfried von Holleben, em 1970.

Célia Silva Coqueiro, que também esteve presente na Câmara, é filha de Aderval Alves Coqueiro, militante do partido comunista naquela época. Ela contou que o pai era da ala vermelha do PC do B e, posteriormente, no Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Após a morte dele seu pai em 1971, o próprio movimento é quem providenciou a retirada de sua família do país, que morou no Chile e em Cuba, para que as crianças não fossem presas, como tantos que aconteceram na época.

Na volta, em 1979, eles voltaram ao país com salvo conduto, porque ainda havia resquícios da ditadura que não reconhecia os ex-exilados como brasileiros. “Por mais que fôssemos bem recebidos em outros países perdemos a melhor parte de nossa vida aqui. Eu fui alfabetizada em castelhano”, disse.

Ñasaindy Barret de Araújo não foi banida do país. Nasceu em Cuba, filha de uma guerrilheira paraguaia Soledad Barret Viedma e de um brasileiro e foi acolhida por uma brasileira exilada no país.  Ela fez um paralelo com a história e o momento político atual. “Se vocês lerem o livro, vão entender porque nos chamamos de família e há uma falta de conhecimento do que realmente foi a ditadura”, ponderou. “A gente não pode permitir que este tipo de violação, este tipo de cultura se perpetue e quando as quinhentas mil pessoas vão às ruas pedindo a volta da Ditadura é por falta de informação”, desabafou.

A ex-pesquisadora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e uma das organizadoras do livro, Maria Carolina Bissoto, mostrou como o trabalho foi elaborado tratando em capítulos do livro digital (PDF). Além deste, a equipe produziu o livro “O Bagulhão”, que é um compilado de cartas escritas por ex-presos políticos e outro que trata do caso da Guerrilha do Araguaia.

O vereador Pedro Tourinho (PT), que presidiu o evento, disse que a publicação do livro traz a reflexão sobre o direito do Estado de cometer violência contra o cidadão. “Tem setores que ainda acreditam que o Estado deve ser o agente de violência. Nós precisamos lutar para que isso jamais seja tolerado”, afirmou.

Publicada em 15/04/2015 14h06