Torcida mista: Ponte, Guarani , Red Bull e PM elogiam vereadores por iniciativa, mas veem diversos obstáculos a ser superados e sugerem não-obrigatoriedade
Em debate público realizado no plenário da Câmara Municipal na tarde desta quarta (24) para analisar o projeto de lei dos vereadores Luiz Carlos Rossini (PV) e Luiz Henrique Cirilo (PSDB) que prevê espaços destinados a torcida mista em partidas realizadas em estádios de Campinas, os três times de futebol da cidade e a Polícia Militar elogiaram a ideia, mas pontuaram que há uma série de obstáculos a serem superados para que o PL seja viável. Além disso, sugeriram que em vez de obrigatória a lei seja facultativa e, caso seguida, seja premiada com incentivos para compensar investimentos necessários para a criação do setor único.
O vereador Rossini se disse satisfeito com as diversas opiniões exibidas e ressaltou que tudo o que foi dito será analisado mais a fundo. “Hoje realizamos um primeiro momento para sentir da sociedade, da população, dos dirigentes, torcedores e amantes do futebol se a ideia faz sentido. Não podemos desistir de uma ideia porque há obstáculos, apesar dos desafios temos que dar andamento e tentar implementar, pensar como isso seria possível. Não queremos impor nada, neste primeiro momento estamos avaliando e tentando descobrir soluções. Não vi nenhuma contrariedade dos clubes ao projeto, mas sim dificuldades que podem ser trabalhadas e superadas. Acho que vamos amadurecer isso e ainda que não se torne uma lei, uma imposição, a discussão trará resultados positivos”, diz Rossini.
O vereador Cirilo destacou que Campinas não é pioneira neste projeto, que já é debatido em várias Câmaras do estado de São Paulo, e citou recente jogo com torcida mista realizada entre Internacional e Grêmio-RS. “O objetivo deste projeto é, acima de tudo, criar uma estrutura para combater a violência e levar as famílias de volta ao estádio. É claro que este projeto é destinado a seres humanos, pessoas civilizadas que gostam do futebol e querem ir ao estádio. Aquele torcedor mais apaixonado, se não sabe se controlar, deve ficar no espaço destinado à sua torcida, mas se ele é muito exaltado nem deveria ir ao estádio. Queremos, porém, encontrar uma solução boa a todos e não queremos enfiar goela abaixo. O PL tem que sair com anuência de dirigentes e torcedores”, pontuou.
Ponte Preta
Primeiro a se manifestar, o diretor de Patrimônio da Ponte Preta, Sérgio Lattaro, leu uma mensagem do presidente de honra do time, Sérgio Carnielli. “Em tempos em que constantemente nos vemos cercados pela violência, qualquer iniciativa que tenha como objetivo promover a paz, como esta, é digna de elogios. No entanto, ainda que na teoria a ideia seja muito boa, acredito que ela é utópica, que infelizmente é impossível de se sustentar na prática”, afirmou Carnielli, em carta.
Para ele, criar um espaço para a torcida única implica em ter três torcidas diferentes a cada partida. “Em vez do antagonismo da torcida da casa e da visitante, haverá também o antagonismo da torcida da casa contra a torcida mista e da torcida visitante contra a torcida mista. Será necessário destinar um espaço exclusivo à torcida mista e isso implica, em primeiro lugar, em reformas estruturais, o que gera custos que os clubes não têm como arcar”, disse.
Carnielli pontuou ainda que, como já ocorre com duas torcidas, a PM iria exigir espaços vazios mínimos entre a torcida mista e as outras duas, o que reduziria a capacidade do estádio, implicando em queda de arrecadação bem como seria necessário reforçar o policiamento do lado externo, garantindo segurança aos torcedores do setor misto até mesmo no trajeto ao estádio.
O próprio Lattaro, por sua vez, ressaltou a necessidade das adequações físicas nos estádios em atendimento a regras de segurança. “A Ponte tem hoje um ótimo relacionamento com PM e bombeiros. Lutamos arduamente para adequar as normas de segurança vigente, estamos dentro dela. Mas temos que ter em mente que nosso estádio hoje não é uma arena multiuso, não foi concebida para isso, é estádio de futebol para partidas de futebol. Para ter uma área de torcida mista seria necessário construir novas entradas, saídas específicas, pontos de fuga novos, acima de tudo teríamos que ‘começar do começo’: desenvolvendo um projeto específico para reformar, apresentar projetos para órgãos analisarem e após tudo isso viabilizarmos economicamente”, afirmou.
Lattaro destacou que a Ponte já realizou neste ano um jogo com torcida mista e famílias, mas dentro de outro contexto. “Realizamos no último final de semana um jogo festivo contra o Strikers, time dos EUA, com participação de famílias, amigos, coquetel de recepção, um momento de entrelaçamento de torcidas, mas de um time que efetivamente está construindo sua torcida no Brasil, sem nenhum antagonismo. Em um jogo numa competição, porém,nosso estádio não tem condição técnica para torcida mista. “
Guarani
Palmeron Mendes Filho, presidente do Conselho Fiscal do Guarani, afirmou que a mensagem de Carnielli sintetizou de maneira clara a situação e que concordava com os pontos levantados. Acrescentou, ainda, que a Copa do Mundo no Brasil mostrou que a torcida mista é possível, mas que a realidade é diferente em muitos casos. “Estou certo que 90% dos torcedores de fato receberiam bem a ideia, mas infelizmente entendemos também que os 10% restantes, os que compõem principalmente as organizadas, não comungam com ela. Isso pode gerar não só para os clubes como principalmente para as famílias, um perigoso agravante.”
Além disso, ele ressaltou ser contra a obrigatoriedade estabelecida na lei, bem como as punições no caso de não obediência. “Acho que tem que ser por iniciativa dos clubes, porque hoje os estádios não têm possibilidade de separação. O Guarani já recebeu 50 mil torcedores, hoje recebe 15 mil, com divisão tríplice teria perda de arrecadação. Além disso, todo e qualquer gasto ou possibilidade tem que ser avaliada, nunca poderíamos concordar com multa pecuniária como propõe o projeto, nem com a punição de perda de alvará por dois anos no caso de não-cumprimento, pois sem alvará o time não poderá jogar em seu estádio e isso caminha justamente no sentido contrário do que propõe a lei, pois afastaria a torcida.”
Palmeron sugeriu que o texto da lei seja mudado para, em vez de obrigar os times a ter área para torcida mista, facultar esta possibilidade. E, apontou, os times que aderissem poderiam receber algum tipo de benefício ou isenção fiscal como contrapartida aos investimentos que seriam necessários para a criação do setor.
Red Bull
O presidente do Red Bull, Rodolfo Kussarev Junior, iniciou sua fala dizendo que o Red Bul não se encaixa nos padrões de torcida dos times brasileiros, por ser um clube-empresa e com uma torcida em formação. “Contudo podemos contribuir dando o exemplo do jogo que fizemos contra o Palmeiras, no qual fizemos torcida mista para possibilitar que o torcedor palmeirense de Campinas estivesse presente em maior número. Do ponto de vista numérico e conceitual, compensou, mas houve problemas. Tivemos sete mil pessoas, mas não pudemos abrir a arquibancada, por restrições da PM e da Ponte. Acho que antes de falarmos em torcida única, há outras iniciativas que deveríamos tomar”, afirmou.
Para ele, é preciso que seja mudado o modo com que se trata quem vai ao campo. “ Qualquer torcedor no pais é tratado como bandido por causa de 5% que são bandidos. A revista, por exemplo, me constrange. Na partida contra o Palmeiras pedimos para usar detector de metais, mas a polícia disse que existem armas de plástico. Com todo respeito, se isso ocorre em aeroportos,por que não em estádios? Dá pra imaginar que um torcedor é mais perigoso que um terrorista? Teve um dia em jogo que uma senhora não pode entrar com mamadeira no estádio. Se mamadeira é arma, como vamos chamar as famílias ao estádio?”, qeistionou.
Polícia Militar
O capitão da PM Alexandre Cabrera explicou que o artigo 13 do próprio estatuto do torcedor estabelece que, entre as condições para entrar em um estádio estão não portar objetos, bebidas ou substancias proibidas ou suscetíveis de uso agressivo e consentir em ser revistado. “A polícia age por força de norma. Eu mesmo já fui abordado quando não estava trabalhando e revistado, não me identifiquei. Também não me sento à vontade, mas é necessário e, se quisermos mudar isso, primeiro é preciso alterar o estatuto do torcedor”, disse.
Ele corrigiu a informação do dirigente do Red Bull, dizendo que a PM não se referiu a armas de plástico e sim, por exemplo, bombinhas e fogos, que não acionariam detector de metais. “Poderíamos, por exemplo, ter sistema de raio x como o de alguns aeroportos, mas neste caso há necessidade de investimento dos clubes. Também seria necesário melhorar monitores, ter um videomonitoramento mais adequado, estacionamentos.”
Ele também salientou que seria necessário criar formas mais efetivas de se punir o torcedor que promove a violência. “Hoje, por exemplo, existe a obrigatoriedade do RG na compra do ingresso, porque se o torcedor for punido o RG dele fica marcado e ele não poderia comprar mais ingresso. Porém, um único torcedor pode comprar quantos ingressos quiser com seu RG, aí ele compra e repassa pros demais, inclusive aqueles punidos. Então há de se pensar inclusive em formas para controlar a punição do torcedor que está vetado de entrar no estádio.”
Por fim, o policial militar ressaltou que não é contra se criar áreas de torcida única, mas defende também a não-obrigatoriedade. “Até porque os clubes têm situação distinta. A torcida do Red Bull é diferente da da Ponte e da do Guarani, por exemplo”, finalizou.
Também falaram durante o debate o advogado alvinegro Reginaldo Ezarchi – que defendeu a necessidade de ser realizada uma campanha muito grande promovendo a educação e respeito entre todos os torcedores antes de uma lei que crie espaço para torcidas mistas - e Marcelo Tasso, superintendente executivo bugrino. Este último endossou as dificuldades estruturais de espaço para uma “nova” torcida.
“Ter um setor novo para torcida mista implica em novas entradas, banheiros, saídas, lanchonetes. Hoje o Guarani tem três entradas para os três setores que dispõe não consigo visualizar onde seria possível fazer uma quarta entrada”, disse, questionando inclusive o capitão Cabrera a respeito. O militar respondeu que também não via esta possibilidade no atual estádio.
Por fim, o diretor de marketing do RB, Andrey Centenaro Soares Cabral também falou sobre a experiência do Red Bull e, destacando ser a favor da torcida mista, disponibilizou os jogos do clube para quaisquer experiências neste sentido.
Texto e foto: Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Campinas
