Câmara concede Título de Cidadão Campineiro a ex-vereador da cidade e Diploma de Ativismo Social e Popular a vários homenageados
A Câmara Municipal de Campinas concede Diploma de Ativismo Social e Popular e o Título de Cidadão Campineiro ao sindicalista Ismael Antônio de Sousa, a pedagoga Ruth Joffily, a tradutora Robeni Baptista da Costa, a economista Zenaide Machado Oliveira, a Wanda Conti (in memorian), ao ambientalista Ronaldo Hipólito Soares e ao ex-deputado Eustáquio Luciano Zica. A iniciativa é da vereadora Guida Calixto (PT).
A Reunião Solene será no sábado (15) no Plenário "José Maria Matosinho", com entrada pela Avenida Engenheiro Roberto Mange, 66, Ponte Preta, e transmitido ao vivo pelos canais da TV Câmara Campinas e nas redes sociais da emissora.
Homenageados
Diploma de Ativismo Social e Popular “João Zinclar”
Ismael Antônio de Souza
Ismael Antônio de Souza, cuja biografia se confunde com a luta pela liberdade e pela justiça social no Brasil, um combate que iniciou ainda na adolescência e pelo qual pagou um alto preço. A consciência política dele despertou em seu próprio lar, um ambiente de engajamento e resistência. Filho de um militante de esquerda do Sindicato dos Ferroviários, cresceu participando de reuniões clandestinas em sua casa, assimilando desde jovem os ideais de democracia e o preço da luta. Sua trajetória é um testemunho de que a coragem cívica é, muitas vezes, um legado familiar.
Sua oposição ao regime ditatorial não passou em branco. Ismael foi alvo da violência de Estado, sendo torturado diversas vezes na Rua Tutoia, em São Paulo, então um conhecido centro de repressão da Polícia do Exército. Este endereço tornou-se um símbolo dos horrores da ditadura, e a experiência de Ismael está indelevelmente ligada a ele, representando o sofrimento suportado por tantos brasileiros.
A repressão não se limitou à tortura. Ismael teve sua liberdade negada por dois anos, encarcerado no temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Após este período, foi forçado a deixar o país, cumprindo um exílio de três anos no Chile. Esses cinco anos somados – entre a prisão e o banimento – representam a tentativa do regime de calar sua voz e apagar sua existência política, o que, felizmente, não logrou êxito.
Findo o período de exceção, Ismael retornou ao Brasil e reconstruiu sua vida. Como trabalhador da IMA (Informática dos Municípios Associados), dedicou seus anos de labuto até a aposentadoria, demonstrando a mesma resiliência no campo profissional que havia demonstrado no campo político. Sua história não é apenas de luta, mas também de reconstrução e perseverança
Robeni Baptista da Costa
Robeni Baptista da Costa nasceu em 13 de março de 1945, na cidade de Mirassolândia, interior de São Paulo. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Robeni foi uma das inúmeras mulheres que enfrentaram com coragem a repressão do regime militar no Brasil. Durante a ditadura, foi presa quatro vezes, sendo submetida a brutais sessões de tortura conduzidas pela Operação Bandeirante (Oban) em pelo menos duas dessas detenções.
Na prisão, sofreu abusos inimagináveis: foi torturada na "cadeira do dragão", recebeu choques elétricos nos seios, vagina, ânus e ouvidos, métodos sistemáticos usados para humilhar e quebrar a resistência dos presos políticos. Sua acusação? A tradução do livro "Da Guerra", de Carl von Clausewitz, obra clássica da teoria militar.
A história de Robeni é mais um exemplo do uso da violência de Estado contra aqueles que ousaram pensar e agir por um país mais justo. Sua trajetória permanece como símbolo de resistência, coragem e memória histórica que não deve ser esquecida.
Ruth Joffily
Ruth Joffily, nascida no Rio de Janeiro em 1947, dedicou sua vida à educação e à militância social. É formada em Filosofia e lecionou em importantes instituições do Rio de Janeiro, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a PUC-Rio, contribuindo significativamente para a formação acadêmica e crítica de seus alunos.
Mudou-se para Campinas no início dos anos 1980, quando seu marido foi contratado para atuar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 1983, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, engajando-se como militante de base no núcleo de Barão Geraldo, onde atuou junto a outros militantes contrários à ditadura militar. Ainda em 1983, Ruth passou em concurso público para a rede municipal de Paulínia e iniciou seu trabalho como professora de educação infantil no ano seguinte.
Com sensibilidade social e visão pedagógica avançada, contribuiu ativamente para a valorização da primeira infância como etapa fundamental da educação. Mais adiante, atuou como assessora do secretário de Educação Nilton Brian, na gestão do então prefeito Jacó Bittar, em Campinas.
Nessa função, teve papel fundamental na promoção social e na transição da educação infantil do campo da assistência social para o da educação, tornando Campinas uma cidade pioneira nesse processo de reconhecimento da educação da primeira infância como um direito educacional. A trajetória de Ruth Joffily combina compromisso político, sensibilidade pedagógica e luta por justiça social, deixando marcas importantes nas políticas públicas voltadas à infância e à educação popular.
Zenaide Machado de Oliveira
Zenaide Machado de Oliveira é uma mulher cuja trajetória de vida é um testemunho de resiliência, amor ao conhecimento e dedicação à democracia. Formada em Ciências Sociais e mestre em Economia pela respeitada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua trajetória intelectual, por si só, já seria digna de reconhecimento, demonstrando um compromisso precoce com a compreensão das complexidades da sociedade brasileira.
Durante o período da ditadura militar, pagou um preço elevadíssimo por suas convicções. Foi perseguida, processada e condenada pelas três Armas (Exército, Marinha e Aeronáutica), fato que atesta a intensidade de sua resistência. Sua liberdade foi ceifada por 3 anos e 33 dias, um período de privação que marca indelevelmente a vida de qualquer cidadão. Esta experiência a inscreve na história viva daqueles que lutaram pela redemocratização do país.
Sua luta e sofrimento não foram esquecidos pelo Estado Democrático de Direito. Zenaide foi anistiada, um ato de reparação histórica, e, de forma ainda mais significativa, teve sua condição formalmente reconhecida pelo Ministério da Justiça, que atestou que ela suportou um longo e contínuo período de 16 anos de perseguição política. Este reconhecimento oficial corrobora a extensão e a gravidade das violências que sofreu.
Hoje, aos 80 anos, Zenaide é viúva, mãe e avó. Sua história pessoal é um símbolo de superação. Ela não apenas sobreviveu aos anos de chumbo, mas construiu uma família e carrega consigo a sabedoria de quem viu o país atravessar seus momentos mais sombrios e contribuiu para que emergíssemos deles.
Wanda Conti – in memoriam
Wanda Conti foi uma figura marcante da resistência operária durante os anos finais da ditadura militar no Brasil. Funcionária da Petrobras, destacou-se como uma das organizadoras da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), sendo protagonista em um dos momentos mais emblemáticos da luta sindical: a primeira greve nacional dos petroleiros, em 1983, ainda sob o regime autoritário.
Sua atuação firme e determinada resultou em fichamento no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão política da ditadura, e ela chegou a responder processo por sua militância sindical. Como diretora executiva do Sindicato dos Petroleiros da Replan, Wanda teve papel central na articulação dos trabalhadores do setor de petróleo e contribuiu diretamente para a fundação da CUT São Paulo, além de ter integrado duas direções nacionais da CUT.
Wanda Conti é parte essencial da história da organização dos trabalhadores no Brasil. Sua trajetória representa o elo entre a resistência à repressão militar e a construção de um movimento sindical combativo e independente, voltado à defesa dos direitos da classe trabalhadora.
Título de Cidadão Campineiro
Eustáquio Luciano Zica
Eustáquio Luciano Zica, nascido em Biquinhas-MG, em 7 de janeiro de 1951. É um ativista político com uma trajetória de lutas e dedicação à classe trabalhadora. Antes de se eleger vereador e deputado federal pelo PT foi ajudante de obras e professor em Paineiras-MG, bancário em São Bernardo do Campo-SP e operador industrial especializado na Refinaria Planalto em Paulínia, a partir de 1971 até a histórica greve dos petroleiros de 1983.
Foi fundador do Sindicato dos Petroleiros e atuou na construção do PT. Foi eleito vereador por três eleições (1988, 1992 e 1996), deputado federal por três mandatos (1994, 1998 e 2002) e secretário Nacional de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano no Ministério do Meio Ambiente. Foi também ouvidor-geral da Câmara dos Deputados. Em 2004, foi candidato do PT à prefeitura de Campinas.
Ronaldo Hipólito Soares
Ronaldo Hipólito Soares nasceu em Santos-SP, no dia 30 de junho de 1951. Estabeleceu-se em Campinas onde se aposentou pela Petrobras. Foi assessor, na área ambiental, nos mandatos de vereador e de deputado federal do petroleiro Luciano Zica em Campinas, com formação em técnico em Química.
No governo Toninho/Izalene, foi coordenador das Administrações Regionais e Subprefeituras, entre 2001 e 2002 e assumiu a Secretaria de Serviços Públicos, que coordena a limpeza urbana e os Parques e Jardins, de 2002 até 2004.
Foi chefe de gabinete do Secretário Nacional de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano (SRHU), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), entre 2007 e 2011, onde ajudou a coordenar a articulação, execução e aprovação da Lei 12305/10, que trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos e do decreto 7404/10 que regulamenta a lei.
Entre 2012 e 2013, como gerente de Projetos da SRHU, coordenou as audiências públicas nacionais que subsidiaram a construção do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Participou da Fundação do Centro Cultural Esperança Vermelha, um espaço de formação política, cultural, artística e de lazer. Foi idealizador e coordenador do Comitê Popular de Luta Centro Cultural Esperança Vermelha.
Texto e Foto: Câmara Municipal de Campinas
