Câmara sedia Seminário sobre TEA e TDAH com convidados referências nacionais e profissionais de diferentes regiões do Brasil
A Câmara Municipal de Campinas sedia neste sábado (17) o Seminário TEA e TDAH – Etapa Campinas. O encontro, marcado para o Plenário José Maria Matosinho, das 8h às 17h, reunirá famílias, cuidadores, educadores, profissionais e representantes da sociedade para um dia de informação, conhecimento e discussão sobre os desafios enfrentados pelas pessoas neurodivergentes e suas famílias.
O seminário aberto a toda população contará com profissionais de diferentes regiões do Brasil e nomes que são referências nacionais em suas áreas, colocando Campinas no centro de um debate multidisciplinar sobre neurodivergência, inclusão e apoio às famílias.
Mais do que um encontro técnico, porém, o seminário carrega histórias reais em sua origem. Por trás da iniciativa estão duas pessoas que conheceram os desafios do autismo primeiro dentro de suas próprias famílias e, posteriormente, transformaram essa experiência em atuação social: Carlos Eduardo, pai de uma criança autista e presidente do Instituto TEApoio Campinas; e Ariane Faria, advogada, irmã de um jovem autista e vice-presidente da instituição.
Quando a causa começa dentro de casa
Para Carlos Eduardo, a aproximação com a causa aconteceu a partir da paternidade. Pai de Guilherme, o Guigui, uma criança autista, Carlos passou a conviver diretamente com a rotina de terapias, adaptações, desenvolvimento e com os inúmeros desafios que acompanham muitas famílias atípicas.
Ao perceber que boa parte do conhecimento adquirido durante esse processo poderia ajudar outras pessoas que estavam começando a percorrer o mesmo caminho, passou a transformar a própria experiência em ferramenta de conscientização, acolhimento e mobilização.
Dessa vivência nasceu também uma das bandeiras de sua atuação: ampliar a participação dos homens na paternidade atípica. A proposta não é diminuir ou substituir o protagonismo construído pelas mães, que historicamente carregam grande parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado. Pelo contrário: é reconhecer essa sobrecarga e provocar os homens a assumirem, de forma mais ativa, seu papel dentro das famílias.
Para Carlos, pais precisam estar presentes não apenas financeiramente, mas também na rotina, nas terapias, nas decisões e no desenvolvimento dos filhos — e aqueles que já compreenderam esse papel podem contribuir para que outros homens também se fortaleçam e assumam essa responsabilidade.
Uma irmã que precisou aprender a lutar por direitos
Já a relação de Ariane Faria com o autismo começou ainda mais cedo. Ariane é irmã de um jovem autista, hoje com 19 anos, e sua família atravessou um período em que o autismo ainda era muito menos conhecido e discutido pela sociedade.
Em uma realidade com menos informação disponível, pouca orientação e inúmeras dificuldades para compreender e acessar os direitos necessários ao desenvolvimento e à proteção do irmão, a família precisou aprender, na prática, a encontrar caminhos. Nesse processo, Ariane passou a assumir um papel cada vez mais ativo na condução das questões jurídicas da vida familiar e na busca pela garantia dos direitos do irmão.
A experiência pessoal encontrou, posteriormente, sua formação profissional. Como advogada, o Direito deixou de representar apenas uma profissão e tornou-se também um instrumento para compreender, reivindicar e garantir direitos que sua própria família precisou aprender a buscar.
Essa trajetória contribuiu para que Ariane ampliasse sua atuação e passasse a levar conhecimento e orientação também a outras famílias que enfrentam barreiras semelhantes.
Da experiência familiar nasce o Instituto TEApoio Campinas
Apesar das trajetórias diferentes, as experiências de Carlos e Ariane convergiram para uma mesma percepção: famílias neurodivergentes não deveriam precisar enfrentar seus desafios sozinhas para somente depois descobrir quais caminhos poderiam ter seguido.
Dessa inquietação e do contato com outras famílias nasceu o Instituto TEApoio Campinas, organização fundada por Carlos Eduardo com o propósito de ampliar o acesso à informação, acolhimento, orientação e inclusão. “A proposta é aproximar famílias, profissionais, sociedade civil, iniciativa privada e poder público, criando uma rede capaz de levar conhecimento e oportunidades principalmente às pessoas que encontram maiores barreiras para acessá-los”, ressalta.
Entre as frentes desenvolvidas pelo instituto estão acolhimento e direcionamento de famílias, produção de conteúdo informativo, eventos públicos gratuitos, palestras e treinamentos, espaços sensoriais itinerantes, além da construção de um modelo de institutos descentralizados, pensado para aproximar orientação, profissionais e serviços das comunidades de forma gratuita. “O trabalho parte da compreensão de que uma sociedade inclusiva não pode depender exclusivamente do esforço das famílias diretamente afetadas”, reforça.
Escolas, profissionais, empresas, poder público e sociedade precisam fazer parte dessa construção
O Seminário TEA e TDAH – Etapa Campinas amplia esse movimento ao reunir, em um único espaço, profissionais de diferentes especialidades, palestrantes de várias regiões do país e nomes reconhecidos nacionalmente em suas respectivas áreas de atuação. A proposta é justamente construir um encontro plural, aproximando conhecimento técnico da realidade de quem vivencia diariamente os desafios relacionados ao TEA, TDAH e outras formas de neurodivergência.
Entre os profissionais confirmados estão Marjorie Jasper, neuropsicóloga e criadora do Método Jasper; Charlington Cavalcante, neurologista infantil; Kelvis Sampaio, psicólogo e especialista em inclusão escolar; Danilo Bueno, advogado criminalista; Grazi Coutinho, idealizadora do Mulheres Empreendedoras de Campinas; e Naiara Correa, advogada previdenciária, além dos realizadores Ariane Faria e Carlos Eduardo.
“A presença de profissionais de diferentes áreas e regiões reforça uma das propostas centrais do seminário: a neurodivergência não pode ser compreendida a partir de um único olhar. Saúde, comportamento, educação, inclusão escolar, direitos, família e sociedade fazem parte de uma realidade que exige diálogo entre diferentes especialidades e experiências. Uma rede que une sociedade civil, profissionais e poder público”, explica Carlos Eduardo.
Importância da construção coletiva em torno da causa
O evento conta com o apoio da Câmara Municipal de Campinas e da Prefeitura Municipal de Campinas, por meio da Diretoria de Inclusão e Pessoas com Deficiência e da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, além da participação e apoio de profissionais, institutos, projetos sociais, clínicas e organizações parceiras que atuam em diferentes frentes relacionadas à inclusão, saúde, desenvolvimento e apoio às famílias.
A união entre sociedade civil, profissionais especializados, instituições e poder público reforça uma mensagem central do encontro: nenhuma transformação consistente na área da inclusão acontece de forma isolada. Criar uma cidade mais preparada para receber, respeitar e oferecer oportunidades às pessoas neurodivergentes exige articulação, conhecimento e responsabilidade compartilhada. Informação que precisa chegar a quem mais necessita.
Um dos princípios que norteiam a iniciativa é tornar o conhecimento especializado mais acessível. Para Ariane, falar sobre inclusão significa também romper barreiras de informação e aproximar profissionais, conhecimento e direitos de famílias que, muitas vezes, não sabem a quem recorrer. “O seminário pretende, portanto, ir além da conscientização. A proposta é contribuir para que informação se transforme em compreensão, orientação e atitudes concretas dentro das famílias, escolas, empresas, espaços públicos e demais ambientes da sociedade”, ressalta Ariane.
De acordo com ela, mais do que falar sobre pessoas neurodivergentes, o objetivo é ampliar sua participação e provocar uma reflexão sobre o papel de cada cidadão na construção de ambientes verdadeiramente inclusivos. Porque a inclusão das pessoas neurodivergentes não deve ser uma responsabilidade exclusiva de quem vive essa realidade dentro de casa.
“É uma responsabilidade coletiva. E é justamente a partir dessa união — famílias, profissionais, instituições, projetos sociais, iniciativa privada e poder público — que o Seminário TEA e TDAH – Etapa Campinas pretende deixar seu principal legado: ampliar o conhecimento, fortalecer redes de apoio e fazer com que a inclusão deixe cada vez mais de ser apenas um discurso para se transformar em prática cotidiana”, finaliza.
O evento também fara uma ação solidária para arrecadação de um quilo de alimento. Clique aqui para fazer a inscrição.
Texto e Arte: Organização do Seminário TEA e TDAH – Etapa Campinas
