Praça Julio Mariano
Nascido em 19 de agosto de 1901, em uma fazenda do município de Itatiba, interior de São Paulo, Julio era filho de Amélia Maria da Conceição e Pedro Celestino Mariano.
Mudou-se ainda criança para Campinas, cidade com a qual construiria uma profunda relação afetiva, profissional e intelectual.
Oriundo de uma família humilde, Mariano precisou trabalhar desde cedo. Foi auxiliar de farmácia e empregado de armazéns de secos e molhados, enquanto concluía os estudos primários nos colégios Externato São João e Corrêa de Mello. Embora tenha aprendido francês e música na escola, sempre se definiu como autodidata. Costumava afirmar que sua verdadeira formação ocorreu nas ruas, nos bondes, nos cafés e nos botequins de Campinas, observando pessoas, ouvindo histórias e cultivando uma intensa curiosidade intelectual.
|
Após abandonar os estudos formais, ingressou como tipógrafo na tradicional Casa Genoud, onde permaneceu por quase quinze anos. Nessa época, teve a oportunidade de imprimir O Cometa, pequeno jornal produzido por Mariano e alguns amigos. De circulação irregular, o periódico abordava a vida social da juventude campineira, trazia textos literários, notícias esportivas, comentários sobre corridas de cavalos e uma popular seção de cartas dos leitores, repleta de declarações amorosas. Em 1930, na mesma gráfica, teve publicado seu primeiro livro, Nebulosas, uma coletânea de “poemetos em prosa”. Seu ingresso no jornalismo profissional ocorreu em 1925, quando procurou a direção da Gazeta de Campinas oferecendo seus serviços como repórter esportivo, função até então inexistente na imprensa local. Trabalhou durante anos sem remuneração regular, conciliando a atividade jornalística com o trabalho de tipógrafo. Foi pioneiro na cobertura esportiva local, acompanhando especialmente os clubes Guarani e Ponte Preta. Mais tarde, ingressou no Correio Popular, onde ajudou a estruturar a cobertura policial. Sua coluna, intitulada “No Cadastro da Polícia e das Ruas”, tornou-se uma das mais lidas do jornal e consolidou sua reputação como repórter atento aos acontecimentos cotidianos da cidade. O episódio que eternizou seu nome ocorreu durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Com a aproximação dos combates e os temores provocados pelos bombardeios e pelo avanço das tropas federais, grande parte da população deixou Campinas. Muitos integrantes da redação do Correio Popular, incluindo diretores e redatores, também abandonaram a cidade. Mariano foi um dos poucos que permaneceram. |
Durante vários dias, assumiu praticamente sozinho a tarefa de manter o jornal em circulação. Apurava informações diretamente no front de batalha, redigia as reportagens, participava da composição tipográfica, supervisionava a impressão e colaborava na distribuição dos exemplares. Trabalhando jornadas que chegavam a vinte horas diárias, quase sem descanso, conseguiu levar às ruas um jornal reduzido, porém fundamental para informar a população sobre os acontecimentos do conflito. Graças ao seu esforço, ficaram preservados importantes registros sobre a guerra em Campinas, incluindo relatos dos combates, dos bombardeios, das perdas humanas e do cotidiano dos voluntários constitucionalistas.
Além do trabalho nos jornais impressos, teve uma breve passagem pelo rádio entre 1942 e 1946, apresentando programas jornalísticos.
Em 1950, quando ingressou como funcionário público na Câmara Municipal de Campinas, como redator administrativo, destacou-se pela dedicação à recuperação e conservação de documentos históricos que corriam o risco de ser descartados. O empenho nessa atividade lhe rendeu o apelido de “salvador de documentos”. Utilizando esse acervo, produziu importantes estudos sobre a história do município. Em sua homenagem, seu nome foi dado à Biblioteca da Câmara Municipal.
Ao longo da vida, Júlio Mariano construiu uma extensa obra como escritor e pesquisador. Entre seus trabalhos destacam-se História da Imprensa em Campinas (1946), Um Crime de Escravos (1949), Crônica da Velha Campinas (1950), Campinas de Ontem e de Hoje (1970) e Badulaques (1979). Também escreveu inúmeros artigos sobre música popular, folclore e história regional, além da curiosa conferência As Boas Qualidades do Sr. Dom Diabo – Autos de um Inquérito Lítero-Demonológico, dedicada à figura do demônio na sociedade moderna.
Mariano, ao que se sabe, nunca reconheceu publicamente sua herança negra e de fato era algo que ficava apenas subentendido. Sua obra e trajetória, contudo, representam um importante capítulo da presença negra na imprensa paulista.
Até pouco antes de sua morte, continuou escrevendo colunas dedicadas à história de Campinas, entre elas “Campinas de Ontem”, “De Campinas de 1800 e Tantos” e “No Giro do Tempo”, mantendo viva a memória da cidade para as novas gerações.
Júlio Mariano faleceu em Campinas, em 15 de julho de 1988, aos 86 anos.
Um ofício encaminhado à Prefeitura de Campinas, em 23 de outubro de 2001, assinado pelo Professor e Advogado Júlio Mariano Júnior, requeria fosse nomeada uma praça da cidade com o nome de seu pai. O pedido acabou dando origem à Lei nº 11.403, de 24 de outubro de 2002.
Referências:
CAMPINAS. Câmara Municipal . Projeto de Lei Ordinária nº 454/2002. Denomina Praça Julio Marinao – Jornalista e Historiador uma praça pública do Município de Campinas.
CARNIELLI, Flávio de Godoy. Gazeteiro e bairristas: histórias, memórias e trajetórias de três memorialistas urbanos de Campinas. Campinas, 2007.
Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/394438
Acesso em: 28 set. 2026
RIBEIRO, Bruno. O homem que fez um jornal sozinho. Revista Ópera. 29 de abril de 2018
Disponível em: https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2018/04/29/o-homem-que-fez-um-jornal-sozinho/
Acessado em: 28 set. 2026

